Treinar e malhar 

Por anos, tivemos entre nosso vocabulário a palavra “malhar” para nos referir a atividades físicas relacionadas ao ganho de massa muscular. Num dado momento, profissionais da área de Educação Física, muito ao modo do que já haviam feito anos antes os profissionais de Telemarketing, começaram a espalhar pelos quatro cantos do país que esta palavra seria inadequada, e que outra, muito mais condizente com as rotinas dos exercícios físicos, deveria ser adotada: “treinar”. Anglicismo feioso — como é feioso todo anglicismo — que nos vem substituir um vocábulo já estabelecido, inclusive no meio específico das academias (lembre-se do seriado sem fim “Malhação”, cujo projeto inicial fora narrar histórias nos entornos de uma academia do Rio de Janeiro). Hoje, impera em todos os lados o tal do “treinar”, que no Brasil sempre significara uma atividade de preparo para algo futuro ou de aprimoramento de competências.

O Livro dos Baltimore

“[Os livros] são as testemunhas da inviolável muralha do nosso espírito, da inexpugnável fortaleza da nossa memória.”

O Livro dos Baltimore é uma obra para os feridos. Sim, é preciso trazer consigo a marca indelével e dolorosa que a vida deixa por debaixo dos tecidos do coração. E se por acaso não estás atualmente ferido, caro leitor, sairás certamente machucado; e que não reclames, pois escolheste levar de própria vontade a bofetada que a vida até hoje te poupara.

Ao repousar os olhos nas primeiras palavras, adentra-se a tragédia, onde os deuses se riem dos planos dos homens. Se nos gregos antigos o Destino tomava o papel do grande agente da dor da vida, aqui o tomam os vícios: o orgulho, a inveja, o ciúme e a paixão dão-se as mãos para tecer, com sua ciranda maligna, o caminho tortuoso que tem por fim o precipício.

Porém, em meio à espessa poeira levantada pelas insuportáveis injustiças, descasos e traições, desponta, ainda que timidamente, a luz do amor e da justiça, do perdão e da misericórdia. Para onde mais se iria? O que mais nos curaria de nossas grandes transgressões, de nossa insuportável soberba? Pois se há algo que nos ensina este romance, é isto: todos os caminhos que não são o amor e o perdão levam ao caos e à perdição; toda pretensa magnitude que deles se afasta não passa de ilusão enganadora e passageira, veneno que se oferece em disfarce de glória.

Joël Dicker nos põe em contato com o sem-tamanho da vida, com a dimensão religiosa da existência. Sua obra é um louvor à memória que se recria e confere um sentido maior às dores inúmeras, sejam as colhidas de erros culpáveis, sejam as advindas das vicissitudes inevitáveis do próprio caminho dos homens. É um canto à resistência dos que trazem a luz dentro de si e não a deixam extinguir-se a despeito da dureza que é existir.

Sobre o livro “Feliz por nada”, de Martha Medeiros

Martha Medeiros engrossa a fila dos típicos palpiteiros. Já não digo em história, economia ou política (assuntos da predileção de grande parte dos elementos dessa categoria, e nos quais ela realmente quase nunca toca), mas em pedagogia e, sobretudo, em psicologia. Este livro seu de crônicas é uma cadeia interminável de afirmações categóricas retiradas de lugar nenhum, parecendo mesmo serem frutos das reflexões acerca de suas próprias experiências. A despeito da falta de respaldo que não o próprio achismo erigido a asserção solene, não perdem as afirmações em nenhum momento o ar de objetividade e de alcance que a autora lhes confere.

Pode ocorrer que, em censura, me digam tratar-se de textos leves e despretensiosos, para os quais a objeção de carência de compromisso e seriedade soaria mesmo ridícula, ao que, em minha defesa, responderia não ser segredo que Martha figura entre os autores de uma autoajuda muito prestigiada em certos meios zen-espiritualistas, onde se contam, inclusive, estudantes de psicologia – faculdade em que, aliás, não consta a autora ter jamais se formado.

Sua prosa varia do simples e elegante dignos de bons cronistas de jornal ao ginasial vazio, ingênuo, infantil e mal formulado. Dito em outras palavras, a qualidade das crônicas é bastante irregular. Suas ideias são sempre a média do humanismo relativista que não se pensa a si mesmo e, exatamente por isso, continuamente revisitado e reafirmado pelo consenso pequeno-burguês, julga-se o centro do qual partem todas as opiniões sensatas (que ninguém se torna grande fã de Woody Allen assim à toa!). Excetuando-se uma ou outra boa sacada, e algumas boas crônicas – diga-se –, como A dama e o rottweiller, O que a vida oferece, Dinos, Viajandões, Quando os chatos somos nós, Amigo de si mesmo, A era dos compactos, Cresça e divirta-se, e mais alguma que me possa estar fugindo à memória, o livro recolhe textos repetitivos e carregados de psicologismo de boteco.

A lição do amigo

O livro é inteiro uma história de amor, como são todas as histórias das verdadeiras amizades. Primeiramente vivida a dois, na privacidade epistolar, e hoje, graças àquele tipo de traição que nos logrou conservar um Kafka, se estende a tantos quantos quiserem e tiverem a oportunidade de lê-la. São todas cartas de Mário; nenhuma de Drummond. A presença deste, todavia, faz-se valer a cada uma das notas, a se nos afigurar como suaves intromissões de quem conosco avança na leitura, a esclarecer-nos contextos e contar-nos o fim que levaram tais e quais projetos anunciados. O carinho devotado ao poeta paulista não passa despercebido nas entrelinhas dessas observações, embora já se houvera prenunciado no título escolhido para o livro. “A lição do amigo” é um nome elegante e digno da simplicidade drummondiana; transmite a ideia acertada do que se encontra em seu recheio: um professor que, além das lições de música que lhe ganharam o pão até o final, oferece lições de vida. Sem nunca abandonar o receio de estar “fazendo literatura” em suas cartas, Mário nos presenteia com profundas reflexões sobre matrimônio, amizade, vida social, felicidade, e tantos outros temas conectados entre si por um eixo comum: o amor à vida. Uma espécie de Nietzsche brasileiro, contudo mais saudável – e católico –, orgulhosamente levanta o estandarte da primazia da vida sobre a arte, da realidade sobre a fantasia, da adaptação sobre o idealismo.

A tragédia perpassa todas as suas páginas. Se de antemão sabemos que a correspondência estende-se até dois dias antes da morte do criador de Macunaíma, cada passar de carta é um passar da vida. Vemo-nos instalados na cronologia de sua existência real, transportados pelo tempo até a primeira metade do século passado, para São Paulo, à Rua Lopes Chaves, 546. Quase chegamos a ouvir o ranger de seus móveis, o som das solas dos sapatos contra o piso, o cheiro da comida do almoço, as vozes, o piano. Assistimos ao desenrolar daquela vida cujas dores sem trégua não obstavam a alegria, antes lhe davam mais firme incentivo e propósito. Adiante, pela pena de Mário, na companhia de Carlos, seguimos sem retrocesso pela trama fatídica em direção àquela que é a “angústia de quem vive”. Aqui, o fim do livro corresponde ao fim da vida: aquele termina quando – e somente porque – esta chega ao seu derradeiro suspiro.

Hoje, nem Mário, nem Drummond contam-se mais entre os vivos, mas conosco permanece este vislumbre imortalizado de sua amizade. Ficamos cá, deste lado, pensativos, a refletir sobre as relações que cultivamos nós mesmos, sobre nossos amores e amizades, acerca do mundo e da vida. As cartas de Mário são o particular que se lança ao todo, ao grande drama de existir. Se a princípio tiveram por destinatário um jovem poeta do interior de Minas, com rua e número certos, hoje se espalham por todo o mundo lusófono, a comover, ensinar e fazer novos amigos.

Para ler

Para ler coisa mais longa (uma novela, um romance, ou até mesmo um ensaio que se estenda mais), é preciso deixar-te numa posição de repouso, n’algum canto confortável. Ler em frente ao monitor não dá! É um horror! Além disso, necessário é ter já feito todos os afazeres de obrigação: o chão da cozinha varrido, a pia limpa e a louça seca e guardada, bichinhos alimentados e quartos arrumados, cada coisa no seu lugar adequado. Aí, sim, podes começar a ler algo. É preciso paz para ler com proveito, porque ler por ler é mato, não nos aproveita nada. Melhor não ler que ler assim – de fato –, melhor gastar tempo pulando corda na praça ou esparramado na grama do parque, ou qualquer outra coisa que tenha mais recheio que o passar de olhos por linhas de letras e pontos. Concentração é imprescindível, estar ali e naquele instante, e, se fugires, traz-te de volta, agarra-te, domina-te e obriga-te a estar por ali. Para fechar, é bom gostar, gostar de o mundo parar, perder-te em ideias e imaginação, que é aí que fica bom.

Aprendizado de língua estrangeira

Para aprender uma nova língua — aprendê-la de verdade –, é imprescindível voltar a ser criança. É preciso recomeçar a enxergar o mundo, aprender a nomeá-lo e falar sobre suas coisas novamente. Não basta uma adaptação meia-boca, é preciso renascer para uma outra e nova vida, como a criança que um dia foste nascera e crescera para um novo mundo.

Oração

Um domínio do idioma tal que faça de toda ideia não só palavra precisa, mas beleza solar. Um domínio do casal, pensamento e idioma, que nos faça forjar lanças agudas, jardins de damas-da-noite e rosas, ao nosso simples comandar. É o que quero — e só o que quero. Deus, concede-me isto! Tu sabes que sou ovelha do aprisco teu, ainda que de leve enegrecida. Ó, vida, que transpassas os que te amam, transpassa-me a mim — mas não só –, deixa teu perfume e unguento, e que, com a paixão do pensamento, possa decifrar-te na paz dos servos teus.

Se não tens imaginação…

Se não tens imaginação, ou, ao menos, a sincera intenção de desenvolvê-la, não te ponhas a ler poemas. Porque o poema exige-te capacidade de montar um cavalo alado e, despreocupado, voares por um mundo tecido aos poucos, vagarosa e deslumbrantemente. Se não tens apreço pela palavra — ou paciência —, não toques em poema, porque o poema quer ser deliciado, quer pôr-te apaixonado, perdido na beleza das palavras e sua delicadeza (mesmo o mais bruto dos poemas é delicado). Se queres só o que é comum e trivial, vai à padaria, faz um chá, mas não te ponhas a ler poemas, porque o poema é uma droga benfazeja, nascida do sexo entre o tédio e a paixão pelo que vai solto, desprendido a navegar, e pode tirar-te o chão. Mas se queres gozar, jubilar-te, rodopiar… ah!… põe-te a ler poemas, que esses são florestas virgens, minas secretas, fontes de águas crespas, e pôr-te-ão a levitar por mundos ricos e incríveis – e a amar.