Sobre o livro “Feliz por nada”, de Martha Medeiros

Martha Medeiros engrossa a fila dos típicos palpiteiros. Já não digo em história, economia ou política (assuntos da predileção de grande parte dos elementos dessa categoria, e nos quais ela realmente quase nunca toca), mas em pedagogia e, sobretudo, em psicologia. Este livro seu de crônicas é uma cadeia interminável de afirmações categóricas retiradas de lugar nenhum, parecendo mesmo serem frutos das reflexões acerca de suas próprias experiências. A despeito da falta de respaldo que não o próprio achismo erigido a asserção solene, não perdem as afirmações em nenhum momento o ar de objetividade e de alcance que a autora lhes confere.

Pode ocorrer que, em censura, me digam tratar-se de textos leves e despretensiosos, para os quais a objeção de carência de compromisso e seriedade soaria mesmo ridícula, ao que, em minha defesa, responderia não ser segredo que Martha figura entre os autores de uma autoajuda muito prestigiada em certos meios zen-espiritualistas, onde se contam, inclusive, estudantes de psicologia – faculdade em que, aliás, não consta a autora ter jamais se formado.

Sua prosa varia do simples e elegante dignos de bons cronistas de jornal ao ginasial vazio, ingênuo, infantil e mal formulado. Dito em outras palavras, a qualidade das crônicas é bastante irregular. Suas ideias são sempre a média do humanismo relativista que não se pensa a si mesmo e, exatamente por isso, continuamente revisitado e reafirmado pelo consenso pequeno-burguês, julga-se o centro do qual partem todas as opiniões sensatas (que ninguém se torna grande fã de Woody Allen assim à toa!). Excetuando-se uma ou outra boa sacada, e algumas boas crônicas – diga-se –, como A dama e o rottweiller, O que a vida oferece, Dinos, Viajandões, Quando os chatos somos nós, Amigo de si mesmo, A era dos compactos, Cresça e divirta-se, e mais alguma que me possa estar fugindo à memória, o livro recolhe textos repetitivos e carregados de psicologismo de boteco.

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A lição do amigo

O livro é inteiro uma história de amor, como são todas as histórias das verdadeiras amizades. Primeiramente vivida a dois, na privacidade epistolar, e hoje, graças àquele tipo de traição que nos logrou conservar um Kafka, se estende a tantos quantos quiserem e tiverem a oportunidade de lê-la. São todas cartas de Mário; nenhuma de Drummond. A presença deste, todavia, faz-se valer a cada uma das notas, a se nos afigurar como suaves intromissões de quem conosco avança na leitura, a esclarecer-nos contextos e contar-nos o fim que levaram tais e quais projetos anunciados. O carinho devotado ao poeta paulista não passa despercebido nas entrelinhas dessas observações, embora já se houvera prenunciado no título escolhido para o livro. “A lição do amigo” é um nome elegante e digno da simplicidade drummondiana; transmite a ideia acertada do que se encontra em seu recheio: um professor que, além das lições de música que lhe ganharam o pão até o final, oferece lições de vida. Sem nunca abandonar o receio de estar “fazendo literatura” em suas cartas, Mário nos presenteia com profundas reflexões sobre matrimônio, amizade, vida social, felicidade, e tantos outros temas conectados entre si por um eixo comum: o amor à vida. Uma espécie de Nietzsche brasileiro, contudo mais saudável – e católico –, orgulhosamente levanta o estandarte da primazia da vida sobre a arte, da realidade sobre a fantasia, da adaptação sobre o idealismo.

A tragédia perpassa todas as suas páginas. Se de antemão sabemos que a correspondência estende-se até dois dias antes da morte do criador de Macunaíma, cada passar de carta é um passar da vida. Vemo-nos instalados na cronologia de sua existência real, transportados pelo tempo até a primeira metade do século passado, para São Paulo, à Rua Lopes Chaves, 546. Quase chegamos a ouvir o ranger de seus móveis, o som das solas dos sapatos contra o piso, o cheiro da comida do almoço, as vozes, o piano. Assistimos ao desenrolar daquela vida cujas dores sem trégua não obstavam a alegria, antes lhe davam mais firme incentivo e propósito. Adiante, pela pena de Mário, na companhia de Carlos, seguimos sem retrocesso pela trama fatídica em direção àquela que é a “angústia de quem vive”. Aqui, o fim do livro corresponde ao fim da vida: aquele termina quando – e somente porque – esta chega ao seu derradeiro suspiro.

Hoje, nem Mário, nem Drummond contam-se mais entre os vivos, mas conosco permanece este vislumbre imortalizado de sua amizade. Ficamos cá, deste lado, pensativos, a refletir sobre as relações que cultivamos nós mesmos, sobre nossos amores e amizades, acerca do mundo e da vida. As cartas de Mário são o particular que se lança ao todo, ao grande drama de existir. Se a princípio tiveram por destinatário um jovem poeta do interior de Minas, com rua e número certos, hoje se espalham por todo o mundo lusófono, a comover, ensinar e fazer novos amigos.