A lição do amigo

O livro é inteiro uma história de amor, como são todas as histórias das verdadeiras amizades. Primeiramente vivida a dois, na privacidade epistolar, e hoje, graças àquele tipo de traição que nos logrou conservar um Kafka, se estende a tantos quantos quiserem e tiverem a oportunidade de lê-la. São todas cartas de Mário; nenhuma de Drummond. A presença deste, todavia, faz-se valer a cada uma das notas, a se nos afigurar como suaves intromissões de quem conosco avança na leitura, a esclarecer-nos contextos e contar-nos o fim que levaram tais e quais projetos anunciados. O carinho devotado ao poeta paulista não passa despercebido nas entrelinhas dessas observações, embora já se houvera prenunciado no título escolhido para o livro. “A lição do amigo” é um nome elegante e digno da simplicidade drummondiana; transmite a ideia acertada do que se encontra em seu recheio: um professor que, além das lições de música que lhe ganharam o pão até o final, oferece lições de vida. Sem nunca abandonar o receio de estar “fazendo literatura” em suas cartas, Mário nos presenteia com profundas reflexões sobre matrimônio, amizade, vida social, felicidade, e tantos outros temas conectados entre si por um eixo comum: o amor à vida. Uma espécie de Nietzsche brasileiro, contudo mais saudável – e católico –, orgulhosamente levanta o estandarte da primazia da vida sobre a arte, da realidade sobre a fantasia, da adaptação sobre o idealismo.

A tragédia perpassa todas as suas páginas. Se de antemão sabemos que a correspondência estende-se até dois dias antes da morte do criador de Macunaíma, cada passar de carta é um passar da vida. Vemo-nos instalados na cronologia de sua existência real, transportados pelo tempo até a primeira metade do século passado, para São Paulo, à Rua Lopes Chaves, 546. Quase chegamos a ouvir o ranger de seus móveis, o som das solas dos sapatos contra o piso, o cheiro da comida do almoço, as vozes, o piano. Assistimos ao desenrolar daquela vida cujas dores sem trégua não obstavam a alegria, antes lhe davam mais firme incentivo e propósito. Adiante, pela pena de Mário, na companhia de Carlos, seguimos sem retrocesso pela trama fatídica em direção àquela que é a “angústia de quem vive”. Aqui, o fim do livro corresponde ao fim da vida: aquele termina quando – e somente porque – esta chega ao seu derradeiro suspiro.

Hoje, nem Mário, nem Drummond contam-se mais entre os vivos, mas conosco permanece este vislumbre imortalizado de sua amizade. Ficamos cá, deste lado, pensativos, a refletir sobre as relações que cultivamos nós mesmos, sobre nossos amores e amizades, acerca do mundo e da vida. As cartas de Mário são o particular que se lança ao todo, ao grande drama de existir. Se a princípio tiveram por destinatário um jovem poeta do interior de Minas, com rua e número certos, hoje se espalham por todo o mundo lusófono, a comover, ensinar e fazer novos amigos.

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