Para ler

Para ler coisa mais longa (uma novela, um romance, ou até mesmo um ensaio que se estenda mais), é preciso deixar-te numa posição de repouso, n’algum canto confortável. Ler em frente ao monitor não dá! É um horror! Além disso, necessário é ter já feito todos os afazeres de obrigação: o chão da cozinha varrido, a pia limpa e a louça seca e guardada, bichinhos alimentados e quartos arrumados, cada coisa no seu lugar adequado. Aí, sim, podes começar a ler algo. É preciso paz para ler com proveito, porque ler por ler é mato, não nos aproveita nada. Melhor não ler que ler assim – de fato –, melhor gastar tempo pulando corda na praça ou esparramado na grama do parque, ou qualquer outra coisa que tenha mais recheio que o passar de olhos por linhas de letras e pontos. Concentração é imprescindível, estar ali e naquele instante, e, se fugires, traz-te de volta, agarra-te, domina-te e obriga-te a estar por ali. Para fechar, é bom gostar, gostar de o mundo parar, perder-te em ideias e imaginação, que é aí que fica bom.

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Oração

Um domínio do idioma tal que faça de toda ideia não só palavra precisa, mas beleza solar. Um domínio do casal, pensamento e idioma, que nos faça forjar lanças agudas, jardins de damas-da-noite e rosas, ao nosso simples comandar. É o que quero — e só o que quero. Deus, concede-me isto! Tu sabes que sou ovelha do aprisco teu, ainda que de leve enegrecida. Ó, vida, que transpassas os que te amam, transpassa-me a mim — mas não só –, deixa teu perfume e unguento, e que, com a paixão do pensamento, possa decifrar-te na paz dos servos teus.