O Livro dos Baltimore

“[Os livros] são as testemunhas da inviolável muralha do nosso espírito, da inexpugnável fortaleza da nossa memória.”

O Livro dos Baltimore é uma obra para os feridos. Sim, é preciso trazer consigo a marca indelével e dolorosa que a vida deixa por debaixo dos tecidos do coração. E se por acaso não estás atualmente ferido, caro leitor, sairás certamente machucado; e que não reclames, pois escolheste levar de própria vontade a bofetada que a vida até hoje te poupara.

Ao repousar os olhos nas primeiras palavras, adentra-se a tragédia, onde os deuses se riem dos planos dos homens. Se nos gregos antigos o Destino tomava o papel do grande agente da dor da vida, aqui o tomam os vícios: o orgulho, a inveja, o ciúme e a paixão dão-se as mãos para tecer, com sua ciranda maligna, o caminho tortuoso que tem por fim o precipício.

Porém, em meio à espessa poeira levantada pelas insuportáveis injustiças, descasos e traições, desponta, ainda que timidamente, a luz do amor e da justiça, do perdão e da misericórdia. Para onde mais se iria? O que mais nos curaria de nossas grandes transgressões, de nossa insuportável soberba? Pois se há algo que nos ensina este romance, é isto: todos os caminhos que não são o amor e o perdão levam ao caos e à perdição; toda pretensa magnitude que deles se afasta não passa de ilusão enganadora e passageira, veneno que se oferece em disfarce de glória.

Joël Dicker nos põe em contato com o sem-tamanho da vida, com a dimensão religiosa da existência. Sua obra é um louvor à memória que se recria e confere um sentido maior às dores inúmeras, sejam as colhidas de erros culpáveis, sejam as advindas das vicissitudes inevitáveis do próprio caminho dos homens. É um canto à resistência dos que trazem a luz dentro de si e não a deixam extinguir-se a despeito da dureza que é existir.

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Sobre o livro “Feliz por nada”, de Martha Medeiros

Martha Medeiros engrossa a fila dos típicos palpiteiros. Já não digo em história, economia ou política (assuntos da predileção de grande parte dos elementos dessa categoria, e nos quais ela realmente quase nunca toca), mas em pedagogia e, sobretudo, em psicologia. Este livro seu de crônicas é uma cadeia interminável de afirmações categóricas retiradas de lugar nenhum, parecendo mesmo serem frutos das reflexões acerca de suas próprias experiências. A despeito da falta de respaldo que não o próprio achismo erigido a asserção solene, não perdem as afirmações em nenhum momento o ar de objetividade e de alcance que a autora lhes confere.

Pode ocorrer que, em censura, me digam tratar-se de textos leves e despretensiosos, para os quais a objeção de carência de compromisso e seriedade soaria mesmo ridícula, ao que, em minha defesa, responderia não ser segredo que Martha figura entre os autores de uma autoajuda muito prestigiada em certos meios zen-espiritualistas, onde se contam, inclusive, estudantes de psicologia – faculdade em que, aliás, não consta a autora ter jamais se formado.

Sua prosa varia do simples e elegante dignos de bons cronistas de jornal ao ginasial vazio, ingênuo, infantil e mal formulado. Dito em outras palavras, a qualidade das crônicas é bastante irregular. Suas ideias são sempre a média do humanismo relativista que não se pensa a si mesmo e, exatamente por isso, continuamente revisitado e reafirmado pelo consenso pequeno-burguês, julga-se o centro do qual partem todas as opiniões sensatas (que ninguém se torna grande fã de Woody Allen assim à toa!). Excetuando-se uma ou outra boa sacada, e algumas boas crônicas – diga-se –, como A dama e o rottweiller, O que a vida oferece, Dinos, Viajandões, Quando os chatos somos nós, Amigo de si mesmo, A era dos compactos, Cresça e divirta-se, e mais alguma que me possa estar fugindo à memória, o livro recolhe textos repetitivos e carregados de psicologismo de boteco.